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Mãos que contam histórias: No Dia do Artesão, a luta por valorização e o talento que molda a identidade brasileira

Publicada em: 19/03/2026 14:09 -

Nesta quarta-feira, 19 de março, o Brasil celebra o Dia do Artesão, uma data que vai muito além do reconhecimento de um ofício. É uma homenagem à memória viva da cultura nacional e a um setor que, silenciosamente, movimenta bilhões de reais e sustenta milhões de famílias. A escolha do dia carrega um simbolismo especial: 19 de março é o dia de São José, carpinteiro e, segundo a tradição cristã, o pai terreno de Jesus, considerado o padroeiro dos trabalhadores manuais .

A institucionalização da data no Brasil, por meio da Lei nº 12.634/2012, e a regulamentação da profissão pela Lei nº 13.180/2015 foram marcos importantes para um setor que, por muito tempo, operou às margens da formalidade . Afinal, ser artesão no Brasil é, para muitos, dar continuidade a um legado familiar. Como define a legislação, é "o exercício de atividade predominantemente manual, que pode contar com o auxílio de ferramentas", mas cujo corção reside na transformação da matéria-prima com identidade e criatividade .

Um Colosso Econômico Chamado Artesanato

Longe de ser apenas uma atividade folclórica ou de lazer, o artesanato é uma potência econômica. Dados de fontes do setor e do Sebrae indicam que a produção artesanal movimenta cifras bilionárias. Estimativas apontam que o setor gera cerca de R$ 50 bilhões por ano e sustenta aproximadamente 10 milhões de pessoas, número que sobe para 8,5 milhões de empregos em outras projeções, representando cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional .

Esses números, no entanto, convivem com uma realidade de desafios, especialmente para os profissionais das periferias e comunidades tradicionais, que enfrentam a concorrência predatória de produtos industrializados e a dificuldade de precificar corretamente seu trabalho, que envolve horas de dedicação e conhecimento único .

Histórias de Fibra, Barro e Linha

Por trás das estatísticas, existem trajetórias de vida que se confundem com a arte que produzem. Conhecer esses artistas é entender a alma do artesanato brasileiro.

Edinar Gomes, natural de Montalvânia (MG) e hoje radicada no Distrito Federal, é uma dessas histórias. Sua paixão pelo papel machê, técnica que trabalha há oito anos, é uma viagem ao seu interior e às suas raízes. "Por meio do papel machê, desenvolvo peças únicas. Dar vida às minhas esculturas é mergulhar no meu interior e deixar fluir a imaginação e a autenticidade artística", conta. Suas criações mais marcantes são aquelas que exaltam a história e a força da mulher negra e a ancestralidade africana. Aluna do curso Técnico em Artesanato do Instituto Federal de Brasília (IFB), Edinar viu seu talento ser reconhecido ao conquistar o primeiro lugar no Prêmio Brasília de Artesanato. Para ela, a arte é um processo de relaxamento e crescimento, que toca a memória afetiva de quem vê suas obras, carregadas de elementos do cerrado e da sua origem mineira .

Artesã Edinar Gomes com suas esculturas em papel machê, técnica que permite trabalhar a ancestralidade e a sustentabilidade. (Foto: Reprodução/IFB) 

Em Paraty (RJ), o bordado ganhou contornos de sofisticação e autonomia na vida de Fernanda Queiroz. Nascida em Brasília, aprendeu a bordar aos 11 anos com vizinhas. Hoje, ela vive exclusivamente do bordado e atende clientes no Brasil e na Europa. Fernanda é a primeira bordadeira da marca Thayná Caiçara, uma grife que reposiciona o fazer manual no mercado da moda contemporânea e do luxo, utilizando a técnica da "pintura de agulha", onde cada peça pode levar até 26 horas de trabalho. Sua trajetória é um exemplo de como o bordado, que ela aperfeiçoou bordando aves da Mata Atlântica, tornou-se fonte de sustento e permitiu que ela conciliasse o trabalho com o cuidado com os filhos .

Já em Minas Gerais, estado que é um dos principais polos artesanais do país, o barro e a madeira se transformam em negócio. Cristiana Souza, à frente do Ateliê Cor Cerâmica, em Belo Horizonte, produz peças utilitárias de alta temperatura. Com apoio do Sebrae Minas, ela aprendeu a estruturar seu negócio. "O Sebrae me ajudou a olhar para minha produção artística como algo estruturado. Aprendi sobre planejamento, precificação, visão estratégica... Isso fortaleceu minha segurança como empreendedora", revela . No sul do estado, Marcelo Simões Barbosa trocou as estradas pela oficina e, com sobras de madeira que seriam descartadas, passou a criar relógios rústicos e jogos educativos. Sua marca, a Bruarte, ganhou forma com consultorias e participação em feiras, chegando ao cobiçado TOP 100 de Artesanato .

A Alma Cultural e os Desafios do Setor

O que une histórias como as de Edinar, Fernanda, Cristiana e tantos outros artesãos anônimos pelo Brasil é o papel de guardiães da cultura. O artesanato brasileiro é fruto da fusão de técnicas indígenas, africanas e europeias, e cada região do país desenvolveu suas especialidades . Do capim dourado do Jalapão (TO) à cerâmica marajoara (PA), das rendas do Nordeste à pedra-sabão de Minas Gerais, cada peça conta a história de um povo e de um território .

Artesanato em capim dourado, do Jalapão (TO), um dos mais conhecidos e valorizados do país, com selo de identificação geográfica. 

No entanto, a valorização plena ainda é uma batalha. O designer e professor de bordado Alan Santana, que atua na periferia de São Paulo, aponta os desafios enfrentados pelas novas gerações e a concorrência com as grandes redes de fast fashion. "As grandes lojas se apropriam. Pegam um bordado tradicional e copiam em máquina. Assim, você perde o desejo de consumir aquele produto", critica. Ele também destaca a dificuldade de fazer com que o trabalho manual seja visto como uma profissão lucrativa e não apenas como um hobby ou fonte de renda complementar, especialmente para suas alunas, em sua maioria mulheres aposentadas ou trabalhadoras informais .

Profissionalização e o Futuro do Fazer Manual

Para combater a invisibilidade e a precarização, a formalização tem se mostrado um caminho crucial. Em Minas Gerais, por exemplo, já são mais de 19 mil profissionais registrados como Microempreendedores Individuais (MEI) e 11.870 Carteiras Nacionais do Artesão emitidas .

A Carteira do Artesão, válida em todo o território nacional, é a porta de entrada para políticas públicas. Emitida pelas Coordenações Estaduais do Artesanato (CEA) mediante a comprovação de habilidade, o documento permite a participação em feiras oficiais, acesso a linhas de microcrédito e incentivos fiscais .

Neste 19 de março, mais do que parabenizar, é fundamental refletir sobre o valor de cada peça feita à mão. Seja um pano de prato bordado, uma escultura de madeira ou uma vasilha de cerâmica, adquirir artesanato é reconhecer o tempo, a história e a identidade de um povo. Como define o Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), o objetivo central é promover o desenvolvimento do setor e a valorização do artesão, elevando seu nível cultural, profissional, social e econômico . Uma missão que passa, inevitavelmente, pelos olhos de quem compra e pelo respeito a essas mãos que, incansavelmente, continuam a contar as muitas histórias do Brasil.

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